O DESTINO DISCRETO DO OFÍCIO

De um lugar histórico e aconchegante












O DESTINO DISCRETO DO OFÍCIO


Há ofícios que vivem no silêncio. 

Não pedem aplausos nem palcos. 
Florescem em gestos, em palavras que encontram acolhida, 
Em dúvidas que viram pensamentos minimamente estruturados. 

É nesse espaço discreto que a Filosofia mostra sua força: 
Não no estrondo das certezas, 
Mas no sopro das perguntas. 

Ensinar, afinal, é acompanhar inquietações
Jamais despejar respostas

Mas testemunhar aproximações razoáveis

Sobre alguma verdade remanescente

(...)

Estava eu aplicando uma prova de Filosofia para a turma de formandos do Ensino Médio. Sempre admirei o entusiasmo adolescente — um espírito desperto para idealizações preciosas. Todas as vezes que adentro uma sala de aula, encontro-me diante daquela leveza que só a juventude conhece, um jeito despretensioso de olhar a vida, ainda que atravessado por certo pavor das responsabilidades recém-impostas ao cotidiano existencial. 

Nesse cenário, procuro assumir uma postura que acompanhe essa leveza, que a reverbere. Um entusiasmo quase ingênuo, mas não menos verdadeiro. Entendo, porém, as circunstâncias: adolescer é, sobretudo, amadurecer. Desde que comecei a lecionar Filosofia para o Ensino Médio, encontrei um sentido grandioso na docência — um senso de propósito. Sem falar que a estética acadêmica da Filosofia tem, em si mesma, uma elegância discreta, quase aristocrática. 

A Filosofia é uma ferramenta de enfrentamento contra o automatismo, um convite à consciência-de-si. Pena que poucos acolham essa perspectiva. Mas se são poucos, quer dizer que são alguns. E que alívio! Antes um que nenhum. Assim, sou eventual e felizmente surpreendido por almas que se deixam tocar pelas provocações ásperas e inquietantes da Filosofia. Almas que se contorcem sob o peso do incômodo e, desse desconforto, decidem fazer nascer algo. Eis aí o germe do conhecimento: o incômodo transformado em criação. 

Assim foi, naquele dia de aplicação de prova. Ao recolher os cadernos de avaliação, um em especial me despertou: as respostas vinham acompanhadas de uma provocação que me foi endereçada: 

“O que seria o homem? 

Perfeição ou imperfeição? 
A primeira ou a última criação? 
Prometeus ou Armagedon? 
Esperança ou desesperança? 
União ou dissipação? 
Começo ou extinção? 
Bagunça ou organização?” 

Não podendo conter-me, escrevi minha resposta: 

Seria o homem, afinal, o resultado último de suas paixões? 
Um pleonasmo existencial? 
Ele é o que é. 
Resultado de si 
De seu desejo. 
Resultado do que foi 
E do que ainda é. 

É criatura e criador, 
Ousou ser deus, 
Produto da desesperança, 
Mas caminho esperançoso de salvação. 

Vida e morte, 
Construção e destruição. 
Unindo, dissipando 
Alfa e ômega, 
Princípio e fim 
testemunha da própria extinção. 

Ordem e desordem. 
Complexidade e simplificação. 

O homem é, antes de tudo, a própria contradição. 

 

É por esses instantes — por essas perguntas que transbordam do papel e se lançam contra mim — que reconheço o valor de minha missão. Ensinar Filosofia é mais do que transmitir conceitos, teorias e história do conhecimento: é tocar almas, é acender fagulhas, é semear dúvidas que florescem em consciência. Talvez seja isso o que me move: a beleza do inesperado, a surpresa do pensamento em estado de nascimento. E, diante disso, só posso sentir entusiasmo: porque, enquanto houver perguntas, haverá caminhos; e enquanto houver caminhos, haverá sentido no que faço: professor? Educador? Poeta do pensamento!?  


Por Farley Marcondes 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE PODERES FEMININOS [PARTE 1]: UM TAL AMOR

SOBRE CONFIANÇA - [in]consciência