CRÔNICAS SEMI-FICCIONAIS DA VIDA COTIDIANA I

Um registro de hoje, enquanto caminhava numa manhã gelada












SOBRE AS PEQUENAS ALEGRIAS DA VIDA ADULTA


Há anos, quando em idade juvenil, 

Eu costumava ver um homem 

Sentado na varanda

Aos domingos 

Na companhia de um maço de cigarros

Um copo qualquer com whisky dentro

Ao lado de um rádio, que tocava rock antigo

E aquela cara…

Semblante carregado

A face de quem foi derrotado

Recompondo-se de alguma esperança 

De que vale a pena alguma coisa

Que não sabia o quê

Era meu pai

Não fazia ideia de que hoje

Eu sou esse homem 

O lugar foi cedido 

O ocupei rapidamente

Prontamente

Hoje em dia me pego no espelho com uma  cara de cansaço

E não melhora

Mesmo nos finais de semana

Mesmo sob alguma anestesia

Álcool, tabaco

Qualquer outra prática lícita 

Ainda preservo o desespero

E o tédio

De novo o desespero

Emergido do crepúsculo de domingo

Ansiedade embriagada

Deletada no dia seguinte 

E então é segunda, um dia normal. 

Guiado por motivos parcos 

Ergo-me em direção à corriqueira e diária rotina. 

Em busca de minha pedra sisifiana.

E junto da trupe do cotidiano, 

Vou carregando o que julgo ser meu

Na crença de fazer parte de algo maior

E de contribuir para o algum progresso social

Patriotismo em migalhas

Qual é o sentido de tudo isso? 

Se amanhã serei o mesmo de hoje. 

Quando é que mudamos, então? 

Digo a mim mesmo que a mudança é uma decisão

Convenço-me pouco. 

Quase nada. 

Pois observe atentamente o quão imerso você está nessa sua rotina supérflua

Que te aprisiona e suga até o último suor de sua glândulas

Daí chega mais uma sexta-feira

Prenúncio de um novo fim de semana.

Denúncia de seu desespero

Anestesia para a alma. 



Por Farley Marcondes

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